Não tem coisa mais emocionante e gratificante do que ver meus
cinco animais (uma cadela e quatro felinos) deitados cada um num canto, sob a
luz vermelha da minha sala de estar (não, não sou puta e nem minha casa é um
bordel. Apenas gosto da combinação jazz-vinho-luz vermelha) ouvindo Miles Davis.
Eu gostaria de poder fotografar essa cena, mas, na falta de uma boa câmera,
esse registro vai ter que criar raízes em minha mente.
Esse é apenas um dos meus momentos cotidianos sofisticados. Não
sou rica, a minha conta bancária tá mais vermelha do que a luz da minha sala,
mas devo modestamente afirmar que sou uma mulher de gosto muito refinado. Não pra
roupas, sapatos, bolsas, joias! Sou uma mulher de abstratos: música, luz,
penumbra, perfume, vinho e uma boa conversa. Posso dizer com um certo orgulho e
satisfação e sem o menor traço de arrogância que ninguém que tenha adentrado o
meu lar, sentado à minha mesa, se esquecerá dos momentos sofisticados e extasiantes
vividos na minha pequena e velha casa de madeira, praticamente uma choupana,
nevando cupim por todo lado. Minha casinha tem luz vermelha na sala, troncos de
árvore sustentando-a por dentro e janelas que mostram o mar e sua espuma se
espalhando pela areia. Na minha casinha se ouve boa música e o som do mar. Aqui
você nunca vai encontrar alguém que seja menos que apaixonante. A risada é
garantida, e também as conversas com a profundeza do mar.
Na terra de Gonçalves Dias tem palmeiras, na minha tem
gatos, cachorro e areia. Tenho certeza que as aves que aqui gorjeiam, o fazem
muito mais bonito do que as aves de lá. Sou muito feliz na terra onde fica a
minha casinha sofisticada. Na verdade, todas as casinhas em que vivi depois que
saí da casa dos meus pais foram sofisticadas. Talvez seja a convivência comigo,
risos.
Agora estamos ouvindo Chet Baker. Os cinco já mudaram de
canto, mas continuam quase que imperceptíveis sentindo a magia sofisticada do
jazz.
Eu não trocaria a minha vida sofisticada pela vida
entediante de um milionário qualquer.
