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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Zeus



O nome dele era Zeus. Ele chegou num momento da minha vida em que tudo estava confuso e dolorido. Era o início do caos. Eu, naquele momento não imaginava o que estava por vir e, se tivesse tido um pequeno vislumbre do que iria passar não conseguiria acreditar que teria a força que tive para superar todo sofrimento que passei. Ele esteve ao meu lado nesses quatro anos.
Quando ele chegou o peguei pela janela do meu quarto para que os cachorros não o vissem. O pobrezinho estava tão assustado e se enfiou rapidamente debaixo da minha cama. Eu respeitei o seu tempo e o deixei ali, quietinho. Eu sabia que assim que ele estivesse pronto faria contato comigo. Algumas horas depois Zeus saiu debaixo da cama e foi até a sala, me olhou nos olhos, miou todo carinhoso e nos amamos desde então. Naquele momento aconteceu um encontro de almas, embora de espécies diferentes. A minha cama passou a ser dele também. Ele sempre dormia na minha cabeça ou aconchegado no meu pescoço. Era um amor mútuo incondicional e transcendental.
Nós compreendíamos um ao outro, sentíamos um ao outro. Uma noite acordei com principio de ataque de pânico e meu coração batia acelerado e a dor no peito era grande. Zeus, que estava dormindo enfiadinho no meu pescoço, imediatamente acordou e colocou a sua pata no meu peito, no chakra cardíaco e a manteve ali, fazendo pressão até a dor e a taquicardia passarem. Então ele retirou sua pata e voltou a dormir.
Zeus esteve ao meu lado nos piores quatro anos da minha vida. Passei por muita dor, uma dor visceral, uma dor profunda na alma, mas também recebi muito amor desse serzinho.  Ele passou quatro anos dentro de casa comigo. Depois de exatos quatro anos, me mudei novamente para outra casa e foi nessa casa que a dor começou a passar e as nuvens negras dissiparam. Não tive coragem de prendê-lo e o deixei livre para ir e vir. A alegria dele de ter contato com o mundo exterior era tão grande e isso me deixava feliz. Ele não parava mais em casa, mas estava sempre por perto. Ele estava muito feliz com a sua liberdade e era muito gratificante ver essa felicidade toda em seus enormes olhos laranjas. Gostava de passear pelo telhado e arranhava a janela do meu quarto quando queria entrar.
Uma noite ele resolveu ficar comigo. Dormimos juntinhos abraçadinhos como há muito tempo não fazíamos e eu soube naquele momento que seria a última vez que dormiríamos juntos.
No dia seguinte ele ainda ficou comigo o dia todo, comeu, dormiu até o cair da noite e então resolveu sair novamente. Já era tarde da noite e eu estava deitada no sofá ouvindo música como de praxe quando ouvi um barulho no telhado. Era um barulho de alguém caminhando com pisadas leves. As pisadas continuaram e, de repente, pararam de uma forma estranha. A impressão não era de algo ou alguém descendo o telhado, mas como se tivesse levantado voo. Nesse momento eu soube que nunca mais o veria.
Acredito em anjos e acredito que eles se materializam de várias formas, dependendo da situação de cada humano. A maneira que meu anjo encontrou de ficar próximo a mim foi em forma de gato.
O meu anjo ficou fisicamente comigo por quatro anos, até eu ficar bem e voltou para o céu.
Sempre que ouço um barulho na janela do meu quarto acho que é ele voltando pra mim. Mas a verdade é que ele nunca me deixou.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

My Funny Valentine

Não tem coisa mais emocionante e gratificante do que ver meus cinco animais (uma cadela e quatro felinos) deitados cada um num canto, sob a luz vermelha da minha sala de estar (não, não sou puta e nem minha casa é um bordel. Apenas gosto da combinação jazz-vinho-luz vermelha) ouvindo Miles Davis. Eu gostaria de poder fotografar essa cena, mas, na falta de uma boa câmera, esse registro vai ter que criar raízes em minha mente.
Esse é apenas um dos meus momentos cotidianos sofisticados. Não sou rica, a minha conta bancária tá mais vermelha do que a luz da minha sala, mas devo modestamente afirmar que sou uma mulher de gosto muito refinado. Não pra roupas, sapatos, bolsas, joias! Sou uma mulher de abstratos: música, luz, penumbra, perfume, vinho e uma boa conversa. Posso dizer com um certo orgulho e satisfação e sem o menor traço de arrogância que ninguém que tenha adentrado o meu lar, sentado à minha mesa, se esquecerá  dos momentos sofisticados e extasiantes vividos na minha pequena e velha casa de madeira, praticamente uma choupana, nevando cupim por todo lado. Minha casinha tem luz vermelha na sala, troncos de árvore sustentando-a por dentro e janelas que mostram o mar e sua espuma se espalhando pela areia. Na minha casinha se ouve boa música e o som do mar. Aqui você nunca vai encontrar alguém que seja menos que apaixonante. A risada é garantida, e também as conversas com a profundeza do mar.
Na terra de Gonçalves Dias tem palmeiras, na minha tem gatos, cachorro e areia. Tenho certeza que as aves que aqui gorjeiam, o fazem muito mais bonito do que as aves de lá. Sou muito feliz na terra onde fica a minha casinha sofisticada. Na verdade, todas as casinhas em que vivi depois que saí da casa dos meus pais foram sofisticadas. Talvez seja a convivência comigo, risos.
Agora estamos ouvindo Chet Baker. Os cinco já mudaram de canto, mas continuam quase que imperceptíveis sentindo a magia sofisticada do jazz.

Eu não trocaria a minha vida sofisticada pela vida entediante de um milionário qualquer.